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Plágio ou o quê?

Luis Fernando Verissimo

Gosto muito do concerto em ré menor para oboé, cordas e baixos contínuos do Alessandro Marcello, um dos menos conhecidos compositores do barroco veneziano, no qual Vivaldi e Albinoni eram o Neymar e o Ganso. Quem também gostava muito do Marcello era o João Sebastião Bach que chegou a transcrever seu conserto para o cravo, mudando só o instrumento porque o resto ficou rigorosamente igual. Imagino que, como eu, João apreciasse principalmente o adágio, um dos mais bonitos de toda a história da música. Apesar de ser a personificação do rigorismo germânico, ou da emoção circunspecta do barroco alemão, Bach tinha o que um crítico da época chamou de um certo quê italianado. E não existe nada mais arrebatadamente italiano, com todo sua melancolia, do que o adágio do concerto em ré menor para oboé do Alessandro Marcello. Apropriar-se da obra de Marcello foi a maneira que Bach encontrou de ser italiano ao extremo sem precisar ser italiano.

O que Bach fez foi plágio, homenagem ou empréstimo? Discutiu-se o mesmo a respeito da influência de Montaigne em Shakespeare. Algumas das ideias do francês seriam detectáveis em Hamlet e Rei Lear, procurando bem. Mas um texto de Montaigne sobre os índios Tupinambás, contrastando sua cultura superior com a suposta civilização europeia e comparando-a à republica idealizada de Platão, é repetido quase que palavra por palavra pelo personagem Gonzalo, em A Tempestade. John Florin, tradutor de Montaigne na Inglaterra era amigo de Shakespeare e deve tê-lo introduzido às teorias sobre o Novo Mundo e seus habitantes defendidos pelo ensaísta. Embora não seja exatamente uma parábola sobre o colonialismo, A Tempestade trata da natureza dos selvagens e da sua relação com os conquistadores brancos, um assunto que ocupava a imaginação europeia na época. Shakespeare plagiou, homenageou ou só aproveitou que o que queria dizer já estava escrito?

No seu livro de 2009 Crônicas do Inesperado, o diplomata aposentado Renato Prado Guimarães dedica uma das ótimas crônicas à origem do Hino Nacional Brasileiro, o nosso querido Ouvirando. O autor da música do hino, Francisco Manoel da Silva, teria se inspirado numa melodia do seu professor, o padre José Nunes Garcia, incluída no seu “Método de pianoforte”. Nunes Garcia usava temas de compositores como Haydn, Mozart e Rossini nas suas lições e a melodia que inspirara Francisco Manoel da Silva fora por sua vez inspirada na abertura da ópera O Barbeiro de Sevilha, de Rossini. Guimarães conta que certa vez, num sarau musical em Frankfurt, onde estava servindo, prometeu um CD da orquestra sinfônica de São Paulo a quem identificasse um semelhança entre o hino brasileiro e alguma pela do repertório operístico. Dois convidados levantaram a mão instantânea e simultaneamente e gritaram O Barbeiro de Sevilha! Eram os cônsules gerais da Itália e da Espanha. Aparentemente, só nós não nos tínhamos nos dado conta.

No caso do hino foi plágio, homenagem ou influência perfeitamente legitima? De qualquer maneira, foi em segunda mão.


Domingo, 3 de julho de 2011.



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